Do “Século dos Cirurgiões” ao século da cirurgia robótica (e da IA)
- Guilherme Clivatti
- 3 de fev.
- 6 min de leitura
Atualizado: 14 de fev.
Quando falamos em grandes viradas da cirurgia, quase sempre estamos falando de uma mesma coisa: controle do risco.
No século XIX, os inimigos eram claros: dor, infecção e hemorragia. O que o livro The Century of the Surgeon (de Jürgen Thorwald) narra é justamente essa transição: a cirurgia “ganha chão” quando anestesia e métodos antissépticos permitem operar com tempo, técnica e previsibilidade — e, com isso, nasce a cirurgia moderna.
Se no passado o desafio era sobreviver ao ato operatório, hoje a fronteira é outra: operar melhor, com mais precisão, menos agressão, mais reprodutibilidade e mais inteligência ao redor da decisão.
E é aí que entra a robótica.

A evolução: do bisturi ao console
1) Cirurgia aberta → laparoscopia: “ver e tocar” com menos invasão
A laparoscopia reduziu trauma de parede, dor e tempo de recuperação, mas trouxe limitações importantes: instrumentação rígida, ergonomia ruim, curva de aprendizado longa e menor destreza em espaços confinados.
2) Laparoscopia → robótica: destreza, visão e ergonomia
A cirurgia robótica aparece como resposta tecnológica a essas barreiras: visão 3D, instrumentos com articulação (“punho”), filtragem de tremor e ergonomia. Um marco histórico: o Intuitive Surgical consolidou o da Vinci Surgical System, que recebeu liberação do FDA para procedimentos laparoscópicos no início dos anos 2000, abrindo a fase de adoção em larga escala.
Na urologia, isso mudou o jogo: anastomoses mais previsíveis, dissecação fina em pelve estreita, melhor ergonomia em cirurgias longas, e padronização de passos críticos.
O que estamos vivendo agora: a “era das plataformas” (robótica 2.0)
Se a primeira fase da cirurgia robótica teve como principal objetivo demonstrar viabilidade e segurança, a fase atual representa uma mudança conceitual mais profunda: entramos na era das plataformas, ou robótica 2.0. Os sistemas robóticos deixam de ser apenas extensões mecânicas das mãos do cirurgião e passam a funcionar como ecossistemas digitais integrados, combinando hardware avançado, software inteligente e geração contínua de dados intraoperatórios. O foco deixa de ser apenas “operar com robô” e passa a ser operar melhor, de forma mais padronizada, mensurável e segura.
O marco mais emblemático dessa transição é o da Vinci 5, a quinta geração da plataforma da Intuitive Surgical, liberada pelo FDA em 2024. Diferentemente das gerações anteriores, o da Vinci 5 introduz feedback de força (force feedback), permitindo ao cirurgião perceber tensão e resistência tecidual diretamente nos controles do console — um avanço significativo em relação à ausência histórica de tato na robótica. Além disso, o sistema passa a capturar métricas objetivas de uso dos instrumentos, forças aplicadas e padrões de movimento, criando uma base sólida para treinamento baseado em dados, melhoria contínua de qualidade e futura integração com inteligência artificial. Na prática, a cirurgia robótica começa a se aproximar de modelos consagrados em áreas como a aviação: performance monitorada, feedback em tempo real e foco sistemático em segurança.
Paralelamente, o cenário atual é marcado pela entrada e consolidação de novas plataformas robóticas, rompendo o antigo modelo de quase exclusividade tecnológica. Um exemplo relevante é o Toumai® Robotic Surgical System, desenvolvido pela MicroPort MedBot. O Toumai é um sistema mestre-escravo com múltiplos braços robóticos, visão 3D de alta definição, instrumentais articulados e recursos de feedback de força, posicionando-se como uma alternativa robusta para procedimentos em urologia, ginecologia, cirurgia geral e torácica. A plataforma já ultrapassou a marca de centenas de instalações e milhares de cirurgias realizadas em diferentes países, sinalizando um movimento claro de expansão global da robótica cirúrgica.
Um diferencial estratégico do Toumai é sua forte aposta em conectividade avançada, incluindo aplicações de telecirurgia com redes de baixa latência (como 5G). Embora ainda restritas a cenários específicos e altamente controlados, essas experiências demonstram como a robótica moderna começa a extrapolar os limites físicos do centro cirúrgico, abrindo perspectivas futuras para ampliação de acesso a especialistas e colaboração remota entre equipes.
Esse novo ecossistema se completa com outras plataformas emergentes, como o Hugo RAS da Medtronic e o Versius Plus da CMR Surgical, que disputam espaço com propostas focadas em modularidade, ergonomia, redução de custo total por procedimento e integração digital. O efeito combinado dessa competição é claro: aceleração da inovação, maior pressão por eficiência e preparação do terreno para o próximo grande salto tecnológico.
Em síntese, a robótica 2.0 não é apenas uma evolução mecânica — é uma transformação sistêmica da cirurgia. Plataformas mais inteligentes, conectadas e orientadas por dados criam as bases para a incorporação progressiva da inteligência artificial como copiloto do cirurgião, auxiliando no reconhecimento de etapas, alertas de segurança, padronização técnica e treinamento avançado. Se o século XIX ficou marcado como o “século dos cirurgiões”, o início do século XXI caminha para ser lembrado como o século dos sistemas cirúrgicos inteligentes.


O próximo salto: quando a IA vira “copiloto” do cirurgião
A robótica melhorou mãos e olhos. A IA pretende melhorar atenção, contexto e decisão, usando dados que antes eram “desperdiçados”: vídeo cirúrgico, movimentos instrumentais (cinemática), energia, parâmetros de equipamento e registros perioperatórios.
Uma revisão recente descreve essa transição como a passagem de robôs “teleoperados” para sistemas cada vez mais sensíveis a contexto e capazes de assistência inteligente intraoperatória.
1) IA para “entender” a cirurgia (computer vision + reconhecimento de fase)
Identificação automática de etapas (ex.: dissecção, hemostasia, sutura)
Detecção de eventos (sangramento, fumaça, perda de plano)
Alertas de segurança (áreas de risco, proximidade de estruturas)
Isso abre espaço para checklists dinâmicos e “warnings” que aparecem no momento certo, reduzindo erro por fadiga e variação técnica.
2) IA para treinar melhor (avaliação objetiva de habilidade)
métricas de movimento (economia, tremor, path length)
padronização de feedback em simulação e proctoring
comparação com benchmarks de especialistas
A consequência é uma educação cirúrgica mais parecida com aviação: performance baseada em dados, não só em impressão subjetiva.
3) IA para automatizar tarefas “de baixo risco” primeiro
O caminho mais realista para automação cirúrgica é começar por tarefas como controle de câmera, sucção/irrigação, posicionamento, retração — aquilo que reduz carga cognitiva do cirurgião e dependência de assistente.
Um exemplo noticiado foi o uso de sistema de câmera guiado por IA para permitir etapas de cirurgia laparoscópica com menos necessidade de assistência humana em tempo real.
4) IA para “operar sozinha”? ainda é pesquisa — mas já mudou de patamar
Nos últimos anos, grupos acadêmicos têm mostrado automação em modelos experimentais (especialmente em tecidos/animais), com robôs executando sequências complexas em ambiente controlado. É promissor, mas ainda distante do “mundo real” com sangramento imprevisível, variação anatômica ampla e intercorrências.
IA vai entrar primeiro como assistência e padronização, não como “substituição do cirurgião”.
O cirurgião continua sendo o responsável pela estratégia, julgamento clínico e tomada de decisão.
O que vem por aí (tendências prováveis, sem futurologia vazia)
Salas cirúrgicas “data-driven”: vídeo + cinemática + prontuário integrados para gerar insights (qualidade, segurança, tempo, custos).
Plataformas mais modulares e competitivas: queda gradual de custo por caso e expansão para mais hospitais.
Mais recursos de feedback e “sensoriamento”: haptics/força ( simulação de sensação física e foça ao cirurgião do console), instrumentação mais inteligente e camadas de software para suporte intraoperatório (ex.: recursos anunciados em gerações recentes).
Observação: Hoje quando operamos em uma plataforma robótica não temos a sensação tátil, essa sensação é cognitiva, visual.
Regulação e ética como parte do produto: validação clínica, privacidade do vídeo, vieses de dados e rastreabilidade das decisões algorítmicas.
Do “século dos cirurgiões” ao “século dos sistemas”
Se o século XIX transformou a cirurgia ao controlar dor e infecção, o século XXI está transformando a cirurgia ao controlar variabilidade.
A robótica trouxe uma nova biomecânica para a mão do cirurgião. A IA promete trazer uma nova biomecânica para a atenção do cirurgião: lembrar o que importa, mostrar o que é invisível, alertar o que passa despercebido e ajudar a treinar melhor.
No fim, a tese é simples: a tecnologia não substitui o cirurgião — ela eleva o padrão do que um cirurgião consegue entregar, com mais consistência e segurança.
att, Dr. Guilherme Clivatti
Urologista - Tisbu
CRM/SC 18354


Muito claro e elucidativo, o futuro e a evolução da medicina e saúde está totalmente ligado a tecnologia, e isso é ótimo, desde que seja feita de forma ética e cautelosa. Parabéns