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Repercussões Urológicas do uso de Finasterida e Dutasterida por Homens Jovens para tratamento de Alopécia Androgenética

  • Foto do escritor: Guilherme Clivatti
    Guilherme Clivatti
  • 21 de fev.
  • 9 min de leitura

A estética masculina é um ponto que, cada vez mais, vem ganhando a atenção dos homens e, quando falamos de bem estar com a imagem corporal, a queda capilar secundária a alopécia (calvice) androgenética é algo que traz incômodo e desconforto a muitos homens jovens. 

Está mais comum o uso dos Inibidores da 5-alfa-redutase ( finasterida e dutasterida) para tratamento e controle da queda capilar por homens jovens.

Mas será que essas medicações, usadas na urologia para tratar hiperplasia prostática em homens mais velhos, trazem alguma repercussão para homens jovens no contexto da saúde sexual? Vamos discutir isso nas próximas linhas.”


Uma ilustraçào de um homem jovem observando as entradas no cabelo, vendo a sua imagem ao espelho

Dutasterida para calvície: eficácia, riscos sexuais e o que você precisa saber


A alopecia androgenética (a “calvície hereditária”) é uma das causas mais comuns de queda de cabelo em homens — e pode começar cedo, ainda na juventude. Quando isso acontece, é natural buscar tratamentos mais eficazes, mas quase sempre surge uma dúvida importante:


“Esse remédio pode afetar minha vida sexual?”


A dutasterida 0,5 mg tem sido cada vez mais usada por ter boa eficácia no controle da calvície. Ao mesmo tempo, ela pode estar associada a efeitos colaterais sexuais em uma parte dos pacientes, como diminuição da libido e disfunção erétil. Em geral, quando esses efeitos aparecem, tendem a ser leves, acontecer no início do tratamento e, na maior parte dos casos, ser reversíveis ao suspender o medicamento.



O que é a dutasterida e por que ela funciona para calvície?


A dutasterida é um medicamento que age bloqueando uma enzima chamada 5α-redutase. Essa enzima transforma testosterona em DHT (di-hidrotestosterona).


E por que isso importa? 

Porque, em homens com predisposição genética, o DHT pode agir no couro cabeludo fazendo os fios ficarem mais finos ao longo do tempo (o que chamamos de miniaturização) e reduzindo a densidade capilar.


Uma diferença importante entre dutasterida e finasterida está no “alvo” dessa enzima:

  • Finasterida: bloqueia principalmente a 5α-redutase tipo II

  • Dutasterida: bloqueia a tipo I e a tipo II, levando a uma redução mais intensa do DHT



Na prática, isso explica por que a dutasterida costuma ser considerada um tratamento mais potente para alopecia androgenética.



Dutasterida pode causar disfunção sexual?


Sim, existe associação com aumento do risco de efeitos colaterais sexuais, especialmente:

  • diminuição da libido

  • disfunção erétil

  • alterações na ejaculação (por exemplo, no volume)


Em ensaios clínicos randomizados, a incidência desses eventos foi aproximadamente duas vezes maior com dutasterida do que com placebo. A maioria foi de intensidade:

  • leve a moderada

  • mais comum nos primeiros meses

  • com tendência a ser reversível após a suspensão



Um ponto importante: muitos textos na internet confundem “aumentou o risco” com “vai acontecer com todo mundo”. A literatura mostra que existe aumento de risco em comparação ao placebo, mas, para a maior parte dos homens, o aumento absoluto (quantas pessoas realmente apresentam o problema) tende a ser pequeno.


Meta-análises com inibidores da 5α-redutase mostram esse aumento de risco em geral. Para dutasterida, em alguns resultados o aumento não atingiu significância estatística, possivelmente por número menor de estudos disponíveis.



O que dizem dados do “mundo real” (FDA e farmacovigilância)?


Dados do FDA (Estados Unidos) listam como efeitos adversos mais comuns com dutasterida:

  • impotência (disfunção erétil)

  • diminuição da libido

  • distúrbios de ejaculação



Há também relatos de que, em casos raros, esses sintomas podem persistir após a interrupção, mas a relação de causa e efeito dessa persistência não está totalmente esclarecida.


Além disso, relatórios de farmacovigilância (notificações após o uso em larga escala) sugerem aumento de notificações de disfunção sexual em usuários de dutasterida.



Dutasterida 0,5 mg x finasterida 1 mg: qual tem mais risco sexual?


De forma geral, os estudos indicam que finasterida 1 mg e dutasterida 0,5 mg têm um perfil de risco sexual semelhante, e que o aumento absoluto de risco costuma ser pequeno.


Meta-análises mostram aumento do risco relativo para ambos em comparação ao placebo e  quando comparamos diretamente os dois medicamentos, estudos não encontraram diferença significativa entre eles quanto a:

  • libido

  • ereção

  • ejaculação



Dados populacionais e de farmacovigilância reforçam a ideia de que o risco de disfunção sexual com finasterida 1 mg é baixo e não difere de forma relevante do risco observado com dutasterida em muitos cenários.



Dutasterida é mais eficaz do que finasterida para calvície?


Em geral, sim. A dutasterida costuma apresentar melhor resposta clínica do que a finasterida em alopecia androgenética.


Estudos randomizados e meta-análises mostram que dutasterida 0,5 mg pode gerar:

  • aumento maior na contagem de cabelos

  • melhor avaliação fotográfica

  • melhor percepção de melhora pelo próprio paciente



Uma estimativa em meta-análise encontrou diferença média de 7,1 hairs/cm² (IC 95%: 5,1–9,3) a favor da dutasterida quando comparada à finasterida.


Em pacientes que não respondem bem à finasterida, a troca para dutasterida pode trazer melhora clínica.E há dados sugerindo resultados sustentados por até 5 anos em análises de longo prazo.


Um detalhe que ajuda a entender a prática médica: em alguns países, a finasterida 1 mg é considerada primeira linha por ter aprovação formal para calvície (por exemplo, pelo FDA nos EUA), enquanto a dutasterida 0,5 mg pode ser usada off-label para alopecia androgenética. Isso não significa “não funciona”; significa que nem sempre é uma indicação “de bula”, dependendo do local.



Efeitos colaterais pouco comuns (mas importantes) com uso prolongado


Além dos efeitos sexuais, há eventos menos comuns que valem ser conhecidos, especialmente se o uso for prolongado.


1) Alterações mamárias:

  • ginecomastia (aumento das mamas)

  • sensibilidade mamária

    Relatadas em menos de 1% dos casos, mas com incidência maior do que placebo em alguns estudos de longo prazo.


2) Possível impacto na fertilidade: Pode ocorrer redução na contagem e na motilidade dos espermatozoides, o que pode impactar fertilidade, principalmente em homens com fatores de risco prévios.


3) Sintomas depressivos (raros): Há relatos de depressão e sintomas depressivos associados ao uso de inibidores da 5α-redutase, incluindo dutasterida, mas a relação causal ainda é incerta.


4) Persistência de sintomas sexuais (raro): Em casos raros, sintomas como libido baixa, disfunção erétil ou alterações ejaculatórias podem persistir após a suspensão, sem mecanismo bem estabelecido.


5) Reações alérgicas (incomuns): Urticária e coceira podem ocorrer, mas são raras.


De modo geral, a maior parte dos efeitos adversos tende a ser leve e reversível, mas é recomendável monitorar sintomas sexuais, mamários, de humor e, quando aplicável, questões relacionadas à fertilidade.



Dutasterida atrapalha o desempenho físico? E a testosterona muda?


Em homens jovens, essa é uma preocupação frequente (especialmente em quem treina).

Os estudos disponíveis sugerem que a dutasterida não prejudica desempenho físico e não reduz:

  • massa magra

  • força muscular

  • capacidade física


Quanto aos hormônios, a dutasterida pode causar um aumento discreto e transitório da testosterona total (em torno de 10–20%), por reduzir a conversão em DHT. Esse aumento geralmente:

  • não é clinicamente relevante

  • volta ao normal após a suspensão



Também não há evidências consistentes de impacto metabólico relevante (como alterações importantes em densidade mineral óssea ou perfil lipídico) em homens jovens tratados.



Como decidir se dutasterida é uma boa opção para você?


A decisão deve ser individualizada e discutida com o seu médico. Em geral, faz sentido considerar dutasterida quando:

  • há progressão importante da alopecia androgenética

  • existe busca por maior eficácia

  • houve resposta insuficiente à finasterida

  • o paciente aceita a ideia de monitorar efeitos colaterais com acompanhamento médico


Em homens muito preocupados com efeitos na função sexual, pode ser importante conversar sobre alternativas e combinações terapêuticas, como minoxidil, além do papel da própria finasterida em determinados cenários.



Conclusão


A dutasterida 0,5 mg pode oferecer maior eficácia no tratamento da alopecia androgenética em comparação à finasterida 1 mg, com um perfil de risco sexual que, no conjunto dos estudos, parece semelhante e geralmente com efeitos leves, mais comuns no início e muitas vezes reversíveis. Ainda assim, é essencial iniciar o tratamento com informação clara, acompanhamento e uma conversa franca sobre benefícios e riscos — sem alarmismo, mas também sem minimizar dúvidas legítimas.


E existe um tema que costuma aparecer justamente quando falamos sobre persistência de sintomas após a interrupção: a chamada Síndrome pós-finasterida. No próximo trecho, vou abrir esse assunto com calma



Síndrome Pós-Finasterida 


síndrome pós-finasterida (SPF) refere-se a um conjunto de sintomas sexuais e psiquiátricos persistentes após a suspensão de inibidores da 5α-redutase, incluindo finasterida e dutasterida, em homens jovens tratados para alopecia androgenética. Os sintomas mais frequentemente relatados são diminuição persistente da libido, disfunção erétil, alterações de ejaculação, depressão, ansiedade e sintomas cognitivos, que podem durar meses ou anos após a interrupção do medicamento.


Os dados atuais mostram que a prevalência da síndrome pós-finasterida (PFS) em homens jovens tratados com inibidores da 5α-redutase, como finasterida 1 mg e dutasterida 0,5 mg, é baixa, mas não desprezível, com estimativas variando de 1% a 5% dos usuários, dependendo do método de avaliação e da definição utilizada. A SPF caracteriza-se por sintomas sexuais persistentes (disfunção erétil, diminuição da libido, alterações de ejaculação), neuropsiquiátricos (depressão, ansiedade, ideação suicida) e físicos, que podem durar meses ou anos após a suspensão do medicamento.


A literatura indica que esses sintomas persistentes ocorrem em uma pequena parcela dos usuários, independentemente da dose ou duração do tratamento, e podem afetar gravemente a qualidade de vida. 


 Estudos prospectivos com dutasterida mostram que a maioria dos efeitos sexuais é reversível, mas há relatos de persistência em casos isolados. 


 Os mecanismos propostos envolvem alterações neuroesteroidais, modulação de receptores androgênicos e impacto na neuroquímica cerebral, já que dutasterida pode atravessar a barreira hematoencefálica e interferir em neuroesteroides relacionados ao humor e à função sexual. 


Em relação à dutasterida, há menos dados do que para finasterida, mas evidências sugerem que os sintomas persistentes podem ocorrer também após a suspensão de dutasterida, embora a incidência pareça ser baixa e o mecanismo ainda não esteja totalmente elucidado. 


Não há tratamento específico comprovado para PFS, e o reconhecimento clínico ainda é limitado. As opções atuais incluem abordagem multidisciplinar: suporte psicológico e psiquiátrico, terapia sexual, uso de antidepressivos ou ansiolíticos quando indicado, e acompanhamento clínico regular. A reversibilidade dos sintomas é imprevisível, e intervenções farmacológicas direcionadas (como reposição hormonal ou uso de PDE5i) não têm eficácia comprovada para SPF. 


 A educação do paciente e a avaliação de risco antes do início do tratamento são fundamentais. 


É fundamental que médicos discutam o risco de sintomas persistentes com pacientes jovens antes de iniciar inibidores da 5α-redutase, monitorando sintomas sexuais e psiquiátricos durante e após o tratamento. 


Cada paciente tem um contexto diferente — idade, histórico de saúde, expectativas com o tratamento, vida sexual, planos de fertilidade e sensibilidade a efeitos colaterais — e tudo isso precisa entrar na decisão. 


Por isso, se você está pensando em usar essas medicações, procure um médico (de preferência urologista e/ou dermatologista), converse abertamente sobre riscos e benefícios, entenda quais sintomas merecem atenção e combine um plano de acompanhamento. Tratamento bem indicado é aquele que traz resultado, mas também traz segurança e tranquilidade ao longo do caminho.


Att, Dr. Guilherme Clivatti

Urologista - Tisbu 

CRM/SC 18354 





Referências:

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Expert Opinion on Pharmacotherapy. 2025. Gupta AK, Talukder M.New


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The Journal of Dermatology. 2016. Tsunemi Y, Irisawa R, Yoshiie H, et al.


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