O que temos de novo no tratamento cirúrgico da Hiperplasia Prostática Benigna (HPB)
- Guilherme Clivatti
- 31 de jan.
- 5 min de leitura
Atualizado: 15 de fev.
A urologia avançou a passos largos na última década. Se antigamente o medo da cirurgia de próstata afastava os homens dos consultórios, hoje as tecnologias minimamente invasivas transformaram essa realidade, oferecendo segurança, precisão e um retorno quase imediato às atividades do dia a dia.

Entendendo a Hiperplasia Prostática Benigna (HPB)
A Hiperplasia Prostática Benigna (HPB) é o crescimento não canceroso da próstata. É um processo natural do envelhecimento masculino: com o passar dos anos, a glândula aumenta de tamanho e passa a comprimir a uretra (o canal do xixi), dificultando a passagem da urina.

Sintomas Comuns da Hiperplasia Prostática
Os sintomas dividem-se em dois grupos principais que impactam severamente a qualidade de vida:
Sintomas Obstrutivos: nesse grupo de sintomas temos o jato urinário fraco, o esforço para começar urinar e a hesitação além da intermitência.
Sintomas Irritativos: aumento da frequencia urinária, urgência para urinar, aumento da frequencia urinária noturna ( noctúria) e a sensação de esvaziamento incompleto.
HPB não é Câncer
É fundamental esclarecer: HPB e Câncer de Próstata são doenças distintas. A HPB ocorre na zona de transição da próstata, região que fica em contato com a uretra prostática, enquanto o câncer costuma se desenvolver na zona periférica. Ter hiperplasia prostática não aumenta o risco de ter câncer, mas ambas as condições podem coexistir.

A cirurgia na HPB não é indicada apenas pelo tamanho da próstata, mas principalmente por:
Falha ou intolerância ao tratamento medicamentoso
Complicações da obstrução infravesical
Impacto clínico significativo na qualidade de vida
As indicações podem ser divididas em absolutas e relativas.
Indicações absolutas de cirurgia na HPB
Estas situações impõem intervenção cirúrgica, independentemente da intensidade dos sintomas:
1. Retenção urinária recorrente ou refratária
Retenção aguda que não permite retirada do cateter
Retenção crônica com alto resíduo pós-miccional
2. Comprometimento do trato urinário superior
Hidronefrose secundária à obstrução prostática
Piora da função renal (IRA ou DRC obstrutiva)
3. Infecções urinárias de repetição
ITU recorrente claramente associada à obstrução infravesical
4. Hematúria macroscópica recorrente por HPB
Especialmente quando refratária ao tratamento clínico (ex.: 5-alfa-redutase)
5. Litíase vesical secundária à obstrução
Cálculos vesicais associados à estase urinária
Indicações relativas de cirurgia
Dependem de avaliação clínica individualizada e decisão compartilhada:
6. Falha do tratamento medicamentoso
Persistência de sintomas urinários moderados a graves (IPSS ≥ 8–19)
Fluxo urinário persistentemente reduzido
Piora progressiva apesar de terapia otimizada
7. Intolerância ou contraindicação aos medicamentos
Hipotensão, efeitos sexuais intoleráveis, interações medicamentosas
8. Sintomas graves com grande impacto na qualidade de vida
Noctúria intensa
Urgência miccional limitante
Sensação constante de esvaziamento incompleto
9. Resíduo pós-miccional elevado persistente
Geralmente > 150–300 mL, especialmente se progressivo ou sintomático
Papel do tamanho prostático
Importante: o volume prostático não é indicação isolada de cirurgia.
Entretanto, o tamanho influencia:
Escolha da técnica cirúrgica
Risco de progressão
Resposta ao tratamento clínico
Exemplo:
Próstatas > 80–100 g → maior chance de falha medicamentosa
Próstatas volumosas + sintomas → cirurgia frequentemente mais custo-efetiva
Quando falamos em tratamento cirúrgico, existem várias técnicas desenvolvidas ao longo do tempo, cada uma com as suas características individuais, particularidades e casos ideais para serem utilizadas.
O Legado da RTU de Próstata
Por décadas, a Ressecção Transuretral da Próstata (RTU) foi considerada o "padrão-ouro". Desenvolvida em sua forma moderna no meados do século XX, ela consiste em "raspar" o excesso de tecido prostático através do canal da uretra, sem cortes externos.
Embora ainda seja muito utilizada e eficaz, a RTU tradicional possui limitações, sendo indicada preferencialmente para próstatas de tamanho médio (até 80g), devido ao risco de sangramento e absorção de líquidos durante o procedimento em glândulas maiores.

A Nova Era: Terapias Modernas e Tecnológicas
As novas diretrizes da American Urological Association (AUA) e da European Association of Urology (EAU) agora validam métodos que priorizam a preservação da função sexual e a redução do tempo de internação.
Para facilitar a compreensão, preparei um comparativo das principais inovações disponíveis:
Tecnologia | Mecanismo de Ação | Perfil Ideal de Paciente | Vantagens Principais | Considerações |
UroLift | Implante de grampos para afastar os lóbulos prostáticos | Próstata < 80g, sintomas predominantemente obstrutivos, desejo de preservar ejaculação | Preservação da ejaculação, alta precoce (24h), sem necessidade de sonda | Não remove tecido, pode não ser ideal para próstatas muito volumosas |
Rezum | Injeção de vapor de água para necrose térmica controlada | Próstata 30-80g, pacientes com comorbidades que evitam anestesia geral | Procedimento rápido (5-10 min), feito com sedação leve, preservação sexual | Melhora gradual (semanas a meses), pode necessitar de sonda temporária |
HoLEP | Enucleação completa do adenoma com laser Holmium | Próstata > 80g, pacientes jovens, necessidade de retirada máxima de tecido | Considerado novo padrão-ouro para grandes próstatas, alta precoce, baixo sangramento | Curva de aprendizado técnica, requer experiência do cirurgião |
ThuLEP | Enucleação com laser Túlio (semelhante ao HoLEP) | Mesmo perfil do HoLEP, próstatas volumosas, mas podendo ser empregada em próstatas de todos os tamanhos | Precisão cirúrgica, hemostasia excelente, recuperação rápida | Tecnologia mais recente, disponibilidade limitada em alguns centros |
Prostatectomia Robótica | Remoção completa da próstata via robótica (abordagem transvesical) | Próstata gigante (>150g), pacientes jovens sem câncer | Retirada completa do adenoma, excelente hemostasia, recuperação mais rápida que cirurgia aberta | Procedimento mais invasivo, custo elevado, necessita de centro com robótica |
Aquablation | Remoção do tecido com jato de água guiado por robótica | Próstata 30-80g, pacientes que priorizam preservação da função sexual | Precisão robótica, sem dano térmico aos nervos, preservação máxima da ejaculação | Tecnologia de ponta, disponibilidade ainda limitada no Brasil |
GreenLight Laser (PVP) | Vaporização do tecido prostático com laser de 532nm | Próstata 30-80g, pacientes em uso de anticoagulantes, necessidade de procedimento rápido | Excelente hemostasia, pode ser feito em pacientes anticoagulados, alta precoce (24-48h) | Não permite análise histológica completa do tecido removido |
As tecnologias citadas acima representam o que há de mais avançado na urologia mundial. O HoLEP, por exemplo, é hoje considerado por muitos especialistas como o novo padrão-ouro para próstatas volumosas, pois permite retirar todo o adenoma (parte interna da próstata) com sangramento mínimo e alta precoce, muitas vezes sem necessidade de sonda por longos períodos.
O objetivo principal de qualquer tratamento para HPB na Clivatti Urologia é duplo: melhorar a qualidade de vida do paciente (permitindo que ele volte a dormir a noite toda e tenha um jato urinário forte) e proteger a bexiga. Uma bexiga que sofre por anos tentando vencer a obstrução da próstata pode se tornar "preguiçosa" ou fibrótica, uma condição muitas vezes irreversível.
A escolha do método Cirúrgico deve ser individualizada para cada caso, levando em conta as características individuais de cada paciente e os objetivos esperados.
Aviso Importante: O Rastreio do Câncer deve continuar
Um ponto que reforçamos com todos os nossos pacientes: a cirurgia de HPB não previne o câncer de próstata. Como esses procedimentos removem ou tratam apenas a parte interna da glândula (o adenoma), a "casca" da próstata (zona periférica) permanece no lugar. É justamente nessa região que a maioria dos tumores malignos se origina.
Portanto, mesmo após uma cirurgia bem-sucedida para HPB, o paciente deve manter o acompanhamento anual com exames de PSA e toque retal para o rastreio preventivo do câncer.
Dr. Guilherme Clivatti
Urologista- Tisbu
CRM/SC 18354




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