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Nefrolitíase. Como surgem e como evitar a recidiva de cálculos renais

  • Foto do escritor: Guilherme Clivatti
    Guilherme Clivatti
  • 17 de mar.
  • 6 min de leitura

Entendendo a Nefrolitíase e a Cólica Renal



Imagem ilustrando multiplos cálculos renais


Quando falamos em nefrolitíase, estamos nos referindo à formação de cálculos (pedras) dentro dos rins. Esses cálculos são estruturas sólidas compostas por cristais de sais minerais que se acumulam na urina. A nefrolitíase é uma condição muito mais comum do que se imagina: afeta cerca de 10% a 15% da população mundial, e esse número vem aumentando nas últimas décadas.

Aqui está um ponto importante que muitos pacientes desconhecem: nem todo cálculo renal causa sintomas. De fato, a maioria dos cálculos permanece silenciosa dentro do rim, sem gerar qualquer incômodo. Esses são chamados de cálculos assintomáticos e frequentemente são descobertos por acaso durante exames de imagem realizados por outras razões (uma tomografia do abdômen, por exemplo). Enquanto o cálculo permanece no rim, geralmente não causa dor ou qualquer manifestação clínica.

O problema surge quando esse cálculo se move ou cresce. Imagine um cálculo que estava "dormindo" no rim e, por alguma razão, começa a se deslocar. Quando ele migra do rim em direção ao ureter (o tubo que conecta o rim à bexiga), é aí que tudo muda. O ureter é um canal estreito e delicado, e um cálculo passando por ele causa uma obstrução parcial ou total. Essa obstrução desencadeia uma inflamação intensa das paredes do ureter e uma contração muscular reflexa do órgão, tentando "expulsar" o invasor.

Esse processo é o que chamamos de cólica renal, e é uma das experiências mais dolorosas que um ser humano pode vivenciar. A dor é tipicamente descrita como intensa, em cólica (vem e vai em ondas), localizada nas costas ou flanco (lateral do abdômen) e pode irradiar para a virilha ou genitais. Frequentemente vem acompanhada de náuseas, vômitos, inquietação e até febre se houver infecção associada. O paciente em cólica renal não consegue ficar parado — diferente de outras dores abdominais onde o repouso ajuda, aqui o movimento é constante na tentativa de aliviar o desconforto.


A sequência é assim:

  1. Cálculo no rim (assintomático): O cálculo está formado e presente no rim, mas não causa sintomas porque não está obstruindo o fluxo de urina.

  2. Migração para o ureter: O cálculo começa a se deslocar em direção ao ureter.

  3. Obstrução ureteral: O cálculo entra no ureter e o bloqueia, causando inflamação e contrações musculares.

  4. Cólica renal: A dor intensa e característica surge como resultado dessa obstrução.


É importante ressaltar que nem todo cálculo que migra para o ureter necessariamente causa cólica. Alguns cálculos pequenos conseguem passar pelo ureter sem gerar sintomas significativos, enquanto outros maiores podem ficar presos e desencadear uma crise aguda. O tamanho, a forma e a localização do cálculo no ureter determinam se haverá ou não manifestação clínica.

Além disso, a presença de um cálculo obstruindo o ureter é uma situação que exige atenção médica, pois pode levar a complicações como infecção urinária, inflamação renal (pielonefrite) e, em casos graves e prolongados, dano permanente ao rim afetado.

Neste artigo, vamos entender como essas pedras se formam, quais são os tipos existentes e, principalmente, como a medicina moderna utiliza a tecnologia para evitar que o problema se repita — seja prevenindo a formação inicial de cálculos ou reduzindo o risco de novos episódios de cólica em pacientes que já tiveram essa experiência.



Como os cálculos se formam? (Fisiopatologia)


A formação de um cálculo renal ocorre através de um processo chamado supersaturação urinária. Em condições normais, a urina contém substâncias que impedem a cristalização. No entanto, quando há um desequilíbrio — seja pelo excesso de sais (cálcio, oxalato, ácido úrico) ou pela falta de solvente (água) — esses sais começam a se agrupar.

Esse processo segue etapas específicas:

  1. Nucleação: Os cristais microscópicos começam a se unir.

  2. Crescimento e Agregação: Pequenos cristais se juntam a outros, formando estruturas maiores.

  3. Retenção: O cristal fica preso nos túbulos renais ou nas papilas, crescendo até se tornar uma "pedra" visível em exames de imagem.

Os principais fatores de risco incluem a baixa ingestão de líquidos, dietas ricas em sódio e proteínas animais, obesidade, diabetes e fatores genéticos.



Conhecendo os tipos de cálculos renais


Nem toda "pedra" é igual. A identificação do tipo de cristal é fundamental para o sucesso do tratamento preventivo:

  • Oxalato de Cálcio: É o tipo mais comum (cerca de 70-80%). Está muito ligado à baixa ingestão de água e ao consumo excessivo de sal.

  • Fosfato de Cálcio: Frequentemente associado a distúrbios metabólicos ou problemas de acidez na urina (acidose tubular renal).

  • Ácido Úrico: Comum em pacientes com dietas ricas em purinas (carnes vermelhas e frutos do mar) ou que possuem síndrome metabólica. Estes cálculos têm a particularidade de não aparecerem em radiografias simples, exigindo tomografia.

  • Estruvita (Cálculos de Infecção): Podem crescer rapidamente e ocupar todo o rim (cálculos coraliformes). Estão diretamente ligados a infecções urinárias por bactérias específicas que alteram o pH da urina.

  • Cistina: Um tipo raro, causado por uma alteração genética que faz o paciente excretar muita cistina na urina.



Identificação: A era da Cristalografia


Antigamente, utilizava-se a análise físico-química (o famoso "exame da pedra" por via úmida). No entanto, esse método caiu em desuso por ser impreciso. Hoje, a Cristalografia por Espectroscopia de Infravermelho é o padrão-ouro recomendado pela EAU e AUA.

Por que a Cristalografia é superior? Diferente dos testes químicos antigos, a espectroscopia identifica a estrutura molecular exata do cálculo. Ela consegue diferenciar, por exemplo, se um cálculo de oxalato de cálcio é do tipo monohidratado (ligado a causas genéticas ou metabólicas severas) ou dihidratado (mais ligado a erros dietéticos). Essa precisão muda completamente a estratégia de prevenção.


O Estudo Metabólico


Além de analisar a pedra, precisamos analisar o "terreno". O estudo metabólico consiste na coleta de urina de 24 horas e exames de sangue para medir níveis de cálcio, citrato (um protetor natural), oxalato, ácido úrico, sódio e magnésio.

Para quem é indicado?

  • Pacientes com cálculos recorrentes (mais de uma vez na vida).

  • Crianças e adolescentes.

  • Pacientes com rim único.

  • Portadores de doenças intestinais (como Crohn ou após cirurgia bariátrica).



Estratégias de Prevenção: O que a ciência diz


A prevenção é dividida em medidas gerais e específicas, baseadas nos guias internacionais de urologia.


Medidas Gerais (Para todos os pacientes)


  1. Hidratação: Beber água suficiente para produzir pelo menos 2,5 litros de urina por dia. Uma métrica importante de hidratação é a urina estar sempre clara. A ingesta de água deve ser calculada com base no seu peso atual ( 35ml/kg/dia).


  2. Redução do Sal: O sódio "puxa" o cálcio para dentro da urina. Menos sal na comida significa menos cálcio na urina. É recomendado limitar a ingestão diária de sódio para menos de 2.300 mg por dia.


  3. Consumo de Cálcio: Erroneamente, muitos pacientes cortam o leite e derivados. Não faça isso. O cálcio da dieta ajuda a bloquear a absorção de oxalato no intestino. O perigo está no excesso de suplementos de cálcio sem orientação, não no queijo ou leite.


  4. Excesso de Proteína: O consumo excessivo de proteínas aumenta a formação de cálculos renais, não devendo esse passar de 1g/kg dia. A proteína animal em excesso aumento a excreção de cálcio e reduz a excreção de citrato.


  5. Aumentar o consumo de Frutas e Vegetais: Na ausência de contraindicações, todos os indivíduos com cálculo renais devem aumentar a ingestão de frutas e vegetais. Esse efeito protetor ocorre pelo aumento da excreção urinária de citrato, um inibidor natural da formação de cálculos.


  6. Controle do peso: O controle do peso corporal pode ajudar a prevenir a recorrência dos cálculos renais, pois a obesidade e o ganho de peso são fatores de risco para o aumento dos índices litogênicos urinários, especialmente em mulheres.


  7. Consumo excessivo de suplementos a base de vitamina C - O consumo excessivo de vitamina C aumenta a excreção de oxalato urinário, especialmente em homens, aumentando a formação de cálculos renais.


  8. Consumo excessivo de vitamina D sem supervisão médica - eleva a excreção urinária de cálcio aumentando a formação de cálculos.



Prevenção Específica


  • Para Oxalato de Cálcio: Aumentar o consumo de frutas cítricas (ricas em citrato, que impede a união dos cristais) e moderar alimentos muito ricos em oxalato (espinafre, nozes, chocolate amargo).


  • Para Ácido Úrico: Alcalinizar a urina (torná-la menos ácida) através de dieta ou medicamentos específicos e reduzir o consumo de bebidas alcoólicas e carnes vermelhas.


  • Para Estruvita: Controle rigoroso e tratamento precoce de infecções urinárias.



Conclusão


Ter um cálculo renal não é apenas um azar passageiro; é um chamado do seu organismo para um ajuste de hábitos ou correção metabólica. A identificação correta do tipo de cálculo através da cristalografia, somada a um estudo metabólico minucioso, permite que hoje possamos oferecer um tratamento personalizado que reduz drasticamente as chances de novas crises.

Se você já teve pedras nos rins, não espere a próxima crise de dor. A prevenção é o melhor caminho para manter a saúde do seu sistema urinário.


Resumindo


  • Cálculos renais surgem pelo desequilíbrio entre sais e água na urina (supersaturação).

  • A Cristalografia por Infravermelho é o método mais moderno e preciso para identificar o tipo de pedra.

  • O estudo metabólico (urina de 24h) é essencial para quem tem pedras de repetição.

  • A prevenção envolve hidratação alta, baixo sódio e consumo equilibrado de cálcio.



Att, Dr. Guilherme M. Clivatti

CRM/SC 18354

Urologista - Tisbu


Referências:

  • EAU Guidelines on Urolithiasis (2024).

  • AUA Medical Management of Kidney Stones Guideline (2023 update).

  • Pearle MS, et al. Medical management of kidney stones: AUA guideline. J Urol.


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