Dor súbita no testículo? Isso pode ser torção testicular — e cada minuto conta
- Guilherme Clivatti
- 25 de fev.
- 6 min de leitura
A torção testicular é uma das emergências mais importantes da urologia pediátrica e do adolescente. Ela acontece quando o testículo gira em torno do próprio “cordão” (cordão espermático), que é por onde passam os vasos sanguíneos responsáveis por levar sangue ao testículo. Quando esse giro ocorre, o fluxo de sangue pode diminuir ou parar, causando isquemia (falta de oxigênio no tecido). Sem tratamento rápido, o testículo pode sofrer lesão irreversível e ser perdido.
Esse é um tema essencial para pais, responsáveis e adolescentes por um motivo simples: a torção testicular, na maioria das vezes, não dá aviso e costuma começar de forma repentina, com dor intensa. E, diferente de muitos problemas “que dá para observar em casa”, aqui a regra é outra: suspeitou, tem que ir ao pronto atendimento imediatamente. Esperar “para ver se passa” pode significar perder a chance de salvar o testículo.

O quão comum é a torção testicular?
A torção testicular pode acontecer em qualquer idade, mas tem dois picos principais:
Período neonatal (recém-nascidos), em que predomina um tipo específico de torção (extra-vaginal).
Adolescência, principalmente entre 12 e 18 anos, quando o crescimento testicular acelera e o testículo fica mais “pesado”, aumentando a chance de torcer em quem tem predisposição anatômica.
Em termos populacionais, os dados de literatura descrevem a torção como um evento relativamente incomum, mas muito relevante por ser uma emergência tempo-dependente. Estudos e revisões frequentemente citam incidência aproximada em torno de 1 caso para cada 4.000 homens menores de 25 anos por ano, e a torção é uma das causas mais importantes de “escroto agudo” (dor e alteração súbita no escroto) em crianças e adolescentes.
O que acontece por dentro: fisiopatologia e a relação com o tempo
Para entender a gravidade, pense no testículo como um órgão que precisa de sangue continuamente. Na torção, o testículo gira e “estrangula” os vasos do cordão espermático.
Primeiro, costuma haver bloqueio do retorno venoso (o sangue entra, mas não sai direito), causando inchaço.
Com o inchaço e o giro, ocorre redução progressiva da entrada de sangue arterial, levando a isquemia.
Se a isquemia persiste, o tecido testicular pode evoluir para necrose (morte celular).
O ponto central é: o tempo manda no desfecho.
Em geral, existe uma “janela” em que a taxa de salvamento do testículo é muito alta quando a cirurgia é realizada precocemente.
À medida que as horas passam, aumentam as chances de lesão irreversível.
Na prática clínica e na literatura, costuma-se usar como referência que a chance de salvamento é melhor quando a correção ocorre nas primeiras 4–6 horas desde o início da dor, e cai progressivamente após isso, tornando-se muito menor quando o quadro ultrapassa várias horas (especialmente após 12–24 horas). Além do tempo, o grau de torção (quantas voltas o testículo deu) também influencia: torções mais “apertadas” podem causar isquemia mais rápida.
Por isso, a mensagem mais importante deste artigo é direta: dor súbita no testículo é urgência.
Tipos de torção testicular: intra-vaginal e extra-vaginal
Existem dois padrões principais:
1) Torção intra-vaginal (a mais comum na infância tardia e adolescência). Aqui, o testículo torce dentro da túnica vaginal (uma “capa” natural que envolve o testículo). Esse tipo é típico de:
Adolescentes
Crianças maiores
Jovens adultos
É justamente nessa faixa etária que os pais e o próprio adolescente precisam saber reconhecer o quadro.
2) Torção extra-vaginal (mais típica do recém-nascido). Nesse caso, a torção ocorre antes da fixação adequada das estruturas escrotais, envolvendo o conjunto testículo-túnicas como um bloco. É mais associada a:
Período perinatal/neonatal (pré-natal, nascimento e primeiras semanas)
O recém-nascido não vai “reclamar de dor”, então a suspeita costuma surgir por sinais como escroto endurecido, aumentado, com coloração alterada e um testículo “alto” e fixo.
Fatores predisponentes: a deformidade “bell clapper” (badalo de sino)
Muitos casos de torção intra-vaginal acontecem porque a anatomia do testículo permite um movimento excessivo. A alteração clássica é a chamada deformidade do “bell clapper”.
Em termos simples: em vez de o testículo ficar “bem preso” dentro do escroto, ele fica mais solto e com maior mobilidade, como um sino que balança. Essa mobilidade facilita que, em algum momento, ele gire sobre o cordão espermático.
Pontos importantes para pais e adolescentes:
Isso pode existir nos dois lados.
Por isso, quando se confirma torção e é feita a cirurgia, é comum o urologista fixar também o testículo do lado oposto (orquidopexia contralateral), para prevenir que a mesma coisa aconteça no futuro.

Sinais e sintomas: como a torção testicular costuma aparecer
A apresentação clássica é muito típica, mas nem sempre “perfeita”. Os sinais e sintomas mais comuns incluem:
Dor testicular súbita e intensa (muitas vezes acorda o adolescente de madrugada).
Aumento de volume do escroto e sensibilidade ao toque.
Náuseas e vômitos (muito frequentes, principalmente nas primeiras horas).
Testículo mais alto e, às vezes, “torto” (posição horizontalizada).
Vermelhidão e calor local podem aparecer com a evolução.
Um ponto útil na avaliação médica é o reflexo cremastérico (um reflexo em que o testículo sobe quando se estimula a parte interna da coxa). Na torção, esse reflexo pode estar ausente do lado afetado — mas isso não é uma regra absoluta, e não deve ser usado sozinho para “descartar” torção.
Importante: torção pode “parecer” outra coisa
Algumas condições confundem muito:
Epididimite/orquiepididimite (infecção/inflamação)
Trauma
Torção de apêndice testicular (uma pequena estrutura vestigial que pode torcer e causar dor, geralmente com quadro menos dramático)
Como a consequência de errar para “menos” é grave, a conduta segura é: torção é diagnóstico a ser excluído primeiro.

Como é feito o diagnóstico na prática
Na prática, o diagnóstico da torção é principalmente clínico: história (dor súbita) + exame físico sugestivo.
O exame complementar mais usado, quando disponível sem atrasar a conduta, é o ultrassom com Doppler do escroto, que avalia o fluxo sanguíneo do testículo. Ele pode ajudar a:
Comparar o fluxo do lado doloroso com o lado normal
Procurar sinais indiretos (edema, alteração do cordão espermático)
Mas existe uma regra de ouro na urologia de emergência: se a suspeita clínica é alta, não se deve atrasar a cirurgia apenas para fazer ultrassom. O motivo é simples: o ultrassom pode demorar, pode ser operador-dependente e, em alguns casos, não elimina totalmente a dúvida. Nessa situação, a exploração cirúrgica precoce é o que salva testículos.
Tratamento: o que realmente resolve (e o que não resolve)
O tratamento definitivo da torção testicular é cirúrgico e urgente.
Na cirurgia, o urologista:
Destorce o testículo (desfaz o giro).
Avalia a viabilidade do órgão (cor, perfusão, sangramento ao corte, aspecto do tecido).
Se o testículo estiver viável: realiza orquidopexia (fixação do testículo para não torcer de novo).
Em geral, faz também a fixação do outro lado (contralateral), pois a predisposição pode ser bilateral.
Se o testículo estiver inviável (necrosado): pode ser necessária orquiectomia (retirada), para evitar complicações.
“Dá para destorcer em casa?”
Não. Qualquer tentativa fora do ambiente médico é arriscada, pode piorar a torção, atrasar o tratamento e dar falsa sensação de melhora.
Em alguns serviços, pode-se tentar destorção manual por profissional treinado, como medida temporária, mas isso não substitui a cirurgia, porque:
Pode destorcer incompletamente
Pode haver nova torção
Ainda é necessária a fixação (orquidopexia)
E se perder um testículo? Repercussões fisiológicas e psicológicas
Perder um testículo na infância ou adolescência impacta duas dimensões:
1) Repercussões fisiológicas
Em muitos casos, o testículo contralateral saudável consegue manter testosterona e fertilidade adequadas.
Ainda assim, podem existir repercussões na fertilidade, especialmente se houver lesão no testículo remanescente, predisposição prévia, ou se a torção causou inflamação significativa.
Por isso, no acompanhamento, dependendo do caso e da idade, pode ser discutido:
Avaliação clínica do desenvolvimento puberal
Dosagens hormonais quando indicado
Avaliação de fertilidade no futuro (quando pertinente)
2) Repercussões psicológicas Na adolescência, o aspecto emocional pode ser enorme:
Vergonha de falar sobre o tema
Ansiedade com imagem corporal
Medo de “não ser normal”
Insegurança em relações afetivas e sexualidade
Isso precisa ser acolhido com naturalidade. Uma conversa clara com o urologista (e, quando necessário, apoio psicológico) faz diferença.
Próteses testiculares: opção estética quando existe preocupação com aparência
Existe a possibilidade de prótese testicular, indicada principalmente por motivo estético e de autoimagem, especialmente em adolescentes e adultos jovens que se sentem desconfortáveis com a assimetria.
Pontos práticos:
A prótese não tem função hormonal nem reprodutiva; ela é volume/forma.
O melhor momento para colocar depende de idade, crescimento, condições locais e decisão compartilhada com paciente e família.
É um tema que deve ser abordado sem tabu, porque para alguns pacientes isso tem grande impacto na autoestima.
Resumindo
Torção testicular é emergência: dor súbita no testículo = pronto atendimento.
O testículo pode perder irrigação e sofrer isquemia; o tempo até a cirurgia é determinante para salvar o órgão.
O diagnóstico é sobretudo clínico; o Doppler ajuda, mas não deve atrasar a conduta quando a suspeita é alta.
O tratamento é cirurgia urgente com destorção e fixação dos dois testículos na maioria dos casos.
A mensagem que fica é: dor testicular súbita é igual a avaliação médica especializada imediatamente.
att. Dr. Guilherme Moreira Clivatti
Urologista - Tisbu
CRM/SC 18354

Excelente conteúdo 👏🏻👏🏻